Banda: Sparklehorse
Álbum: Good Morning Spider
Mark
Linkous deixou-nos em 2010, muito cedo para alguns, para o próprio na altura
certa. Com a sua partida acabaram os Sparklehorse que nos deixam 5 registos
para ouvir, ler e decifrar.
A
viagem começa com Vivadixiesubmarinetransmissionplot
de 1995. Constantes, que irão continuar nos álbuns seguintes, o campo, os
animais, o céu, as estrelas… a morte. É um álbum heterogénio com momentos mais
calmos como Saturday e Homecoming Queen, momentos mais fortes
como em Tears On Fresh Fruit (um
momento à Pixies, apenas como modelo de comparação) ou Someday I will treat you good e momentos mais “regionais”, se é que
posso usar o termo, como em Cow com o
som de uma harmónica e um banjo, que nos ajudam a situar algures no interior
dos EUA (Virginia). É um álbum contemplativo, ainda se sentem histórias
vividas, momentos na vida de alguém, momentos quase banais que, acarinhados
pelas melodias, ganham um novo sentido. No entanto, o estado depressivo, uma
constante em Mark Linkous, já se faz notar em Sad & Beautiful world.
Good Morning Spider (1998) começa com guitarras a rasgar, é mesmo o
termo certo, com válvulas quentinhas Pig é
uma tentativa de Mark dizer: estou vivo! Ainda não sei bem como, ainda estou um
pouco perdido, mas estou aqui… pronto para mais uma tentativa, vamos ver o que
dá. No entanto… todas as músicas seguintes são precisamente o oposto. Painbirds (na minha opinião uma das mais
belas músicas escritas por Mark Linkus) será uma preparação para o que aí vem.
Terá Mark sentido a depressão a voltar, a consciencialização de um futuro
amorfo… pálido… sem expressão. Nunca o saberemos.
Saint Mary é um agradecimento às enfermeiras que o ajudaram na recuperação
(após uma mistura de anti-depressivos e álcool e heroína, Mark esteve desmaiado
14 horas sobre as suas pernas. A recuperação demorou cerca de 6 meses). Mas… é
um agradecimento sofrido, quase triste. A frase The only things I really need is water, a gun, and rabbits
simboliza, na minha opinião, o desejo de estar só, e a dúvida entre fazer algo
que gosta, caçar, e acabar com o sofrimento.
A
partir deste ponto, embora se sintam vários momentos entre o Pop, low-fi e Rock sujo,
as letras transmitem, quase sempre, desesperança, tristeza e uma procura. “I just want to be a happy
man!” ouve-se na mistura Chaos of the
Galaxy/ Happy man. E, por entre
tudo o que se passa neste album, é a mensagem a retirar, o desejo de ser feliz.
Distorted Ghost (2000) gravado em
Memphis, Easley studio, durante algum tempo casa dos Pavement, começa com Happy Man, um rock sujo e agarrado, mas
rapidamente volta ao dream pop com Waiting
for nothing e Happy place. A palavra
happy (felicidade) sempre foi uma constante nos discos de Sparklehorse. My yoke is heavy, original de Daniel
Dale Johnston, é, talvez, uma pequena homenagem a alguém que inspirou Mark a
seguir o seu próprio caminho.
It´s a wonderful life (2001) é um álbum doce,
com arranjos deliciosos, ternos que contrastam com letras estranhas, de um
universo diferente. Há muitos convidados neste álbum, PJ Harvey empresta a sua
voz em Piano Fire e Eye Pennies, Tom waits em Dog Door, Bob Rupe, Nina Persson entre
outros, também dão um pouco de si em algumas músicas. As músicas a destacar,
tarefa difícil, talvez a Eye Pennies e More yellow birds. Na Eye Pennies a linha de piano que abre a
música é simples mas fica no ouvido, vai aparecendo… é tensa e move-se para
descanso, leve. More yellow birds duas linha melódicas de violino com uma
bateria seca dão a entrada e encostamo-nos no sofá, fechamos os olhos e
viajamos. It´s a wonderful life é uma
viagem, uma estranha viagem.
Dreamt for light years in the belly of a mountain (2006), encantei-me tanto com os anteriores que
ainda não tive tempo para digerir devidamente, a ouvir enquanto escrevo. Parece
ser um disco mais calmo emocionalmente, o dream pop muito presente, acordes
largos, expansivos preenchem o espaço e o tempo, parece-me ser um disco mais
pausado. No entanto, It´s not so hard quebra
claramente com esta definição, uma bateria forte, extremamente rock, a tarola
com muita sala enche o espaço, guitarras a desbravar terreno tentando ocupar o
seu espaço numa luta saudável com a bateria, that´s a rock song!
Mark Lingus deixa-nos uma obra extremamente bela, liricamente
complexa. Sinceramente não sei que caminho seguiria se ainda estivesse entre
nós. A música que fecha o Dreamt
for light years in the belly of a mountain e que dá nome ao disco soa-me a
despedida… e que bela despedida.
site: http://www.sparklehorse.com/
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